Planilha de fluxo de caixa projetado: como prever entradas e saídas mês a mês (com cartão, 13º e DAS)
Como montar uma planilha de fluxo de caixa projetado no Excel: saldo inicial, recebimentos à vista e no cartão de crédito com prazo, saídas com fornecedores, folha, 13º salário e impostos, saldo mínimo, alertas e comparação previsto x realizado, com exemplo de fim de ano para um comércio.
Resposta rápida: o fluxo de caixa projetado é uma planilha que estima, para cada mês (ou semana) futuro, quanto dinheiro vai entrar e sair da empresa e qual será o saldo no fim de cada período. A conta é sempre: saldo inicial + entradas − saídas = saldo final, e o saldo final de um mês vira o saldo inicial do seguinte. O segredo está em lançar cada valor na data em que o dinheiro realmente entra ou sai: venda no cartão de crédito cai depois, o 13º salário pesa em novembro e dezembro e os impostos têm vencimento certo.
Com um saldo mínimo definido, a planilha avisa com antecedência os meses em que pode faltar caixa. Diferente do livro-caixa, que registra o que já aconteceu, o fluxo projetado olha para frente. Os valores do exemplo são fictícios.
Projetado, realizado e DRE: qual a diferença?
| Ferramenta | O que mostra | Pergunta que responde |
|---|---|---|
| Livro-caixa / fluxo realizado | Entradas e saídas que já ocorreram | Para onde foi o dinheiro? |
| Fluxo de caixa projetado | Entradas e saídas previstas | Vai faltar dinheiro? Quando? |
| DRE | Receitas e despesas por competência | A empresa dá lucro? |
Uma empresa pode ter lucro na DRE e mesmo assim faltar caixa, por exemplo quando vende muito no cartão parcelado e precisa pagar fornecedores à vista.
Passo 1: estrutura da planilha
Os meses ficam nas colunas (C a N) e as linhas seguem esta ordem:
| Linhas | Conteúdo |
|---|---|
| 5 | Saldo inicial |
| 7–11 | Entradas: vendas à vista (Pix, dinheiro, débito), recebíveis de cartão de crédito, boletos de clientes, empréstimos recebidos, aportes de sócios |
| 12 | Total de entradas |
| 14–23 | Saídas: fornecedores, salários, encargos, 13º e férias, aluguel, impostos (DAS ou outros), contas de consumo, marketing, parcelas de empréstimos, retirada dos sócios (pró-labore) |
| 24 | Total de saídas |
| 26 | Saldo do mês (entradas − saídas) |
| 27 | Saldo final |
| 28 | Alerta |
Fórmulas (o Excel em português usa ponto e vírgula):
- Total de entradas:
=SOMA(C7:C11) - Total de saídas:
=SOMA(C14:C23) - Saldo do mês:
=C12-C24 - Saldo final:
=C5+C26 - Saldo inicial do mês seguinte:
=C27(só o primeiro mês é digitado, com o saldo real de bancos e caixa) - Alerta:
=SE(C27<SaldoMinimo;"ATENÇÃO";"")
Passo 2: projetar os recebimentos do jeito certo
No Brasil, boa parte das vendas no varejo e nos serviços passa pelo cartão, e o dinheiro não entra no mesmo dia:
- Pix, dinheiro e débito: entram praticamente na hora (débito costuma cair em poucos dias, conforme a credenciadora).
- Crédito à vista: normalmente cai cerca de 30 dias depois, já descontada a taxa da maquininha (confira o prazo do seu contrato).
- Crédito parcelado: sem antecipação, cada parcela cai mês a mês. Uma venda de R$ 1.200 em 3x com taxa de 3% gera cerca de R$ 388 em cada um dos três meses seguintes.
- Boleto a prazo: entra no vencimento, se o cliente pagar em dia; use o seu histórico de atrasos.
Uma forma prática é ter uma aba “Recebíveis” com a data prevista de cada entrada e somar por mês: =SOMASES(Recebiveis[Valor];Recebiveis[Data];">="&C$4;Recebiveis[Data];"<="&FIMMÊS(C$4;0)), onde C4 é o primeiro dia do mês. Os dados de venda podem vir da sua planilha de controle de vendas.
Passo 3: saídas que mais pegam o empresário de surpresa
- 13º salário: pago em duas parcelas, a primeira até 30 de novembro e a segunda até 20 de dezembro. Uma boa prática é provisionar 1/12 da folha por mês.
- Férias: o salário de férias com o adicional de um terço é pago antes do início das férias.
- Impostos: no Simples Nacional, o DAS mensal varia com o faturamento; em outros regimes, há tributos mensais e trimestrais. Confira o calendário com o seu contador.
- Compras para datas sazonais (Natal, Dia das Mães, Black Friday): o estoque é pago antes e as vendas no cartão entram depois.
- Parcelas de empréstimos e financiamentos, incluindo a amortização, não só os juros.
- Despesas anuais: IPTU, alvarás, seguros, renovação de software.
Use o histórico da sua planilha de despesas e do contas a pagar para não esquecer nenhum compromisso.
Exemplo: fim de ano de um comércio (em R$)
| Item | Outubro | Novembro | Dezembro |
|---|---|---|---|
| Saldo inicial | 25.000 | 20.200 | 8.700 |
| Vendas à vista (Pix, dinheiro, débito) | 30.000 | 32.000 | 45.000 |
| Recebíveis de cartão de crédito (vendas do mês anterior) | 18.000 | 19.500 | 21.000 |
| Total de entradas | 48.000 | 51.500 | 66.000 |
| Fornecedores | 26.000 | 30.000 | 34.000 |
| Salários | 12.000 | 12.000 | 12.000 |
| FGTS e outros encargos | 1.500 | 1.500 | 1.500 |
| 13º salário | — | 6.000 | 6.000 |
| Aluguel | 5.000 | 5.000 | 5.000 |
| DAS (Simples Nacional) | 3.800 | 4.000 | 4.300 |
| Outras despesas | 2.500 | 2.500 | 2.500 |
| Parcela de empréstimo | 2.000 | 2.000 | 2.000 |
| Total de saídas | 52.800 | 63.000 | 67.300 |
| Saldo do mês | −4.800 | −11.500 | −1.300 |
| Saldo final | 20.200 | 8.700 | 7.400 |
Conferência: 25.000 + 48.000 − 52.800 = 20.200; 20.200 + 51.500 − 63.000 = 8.700; 8.700 + 66.000 − 67.300 = 7.400.
As vendas de fim de ano crescem, mas o caixa cai: o estoque de Natal é pago em novembro e dezembro, o 13º entra nos mesmos meses e as vendas no cartão de dezembro só viram dinheiro em janeiro. Com um saldo mínimo de R$ 15.000, a planilha acende o alerta em novembro e dezembro. Vendo isso em setembro, a loja pode negociar prazo maior com fornecedores, escalonar as compras, provisionar o 13º desde o início do ano ou avaliar com antecedência o custo de antecipar recebíveis, em vez de decidir sob pressão.
Passo 4: cenários e versão semanal
- Três cenários: copie a aba e ajuste as vendas em −15% (pessimista) e +10% (otimista). Se o cenário pessimista ficar negativo por vários meses, o plano precisa de folga.
- Versão de 13 semanas: quando o caixa está apertado, projete semana a semana, com cada pagamento grande na data exata. Ajuda a decidir o que pagar primeiro e a conversar com o banco.
Passo 5: previsto x realizado
- No fim de cada mês, troque os valores previstos pelos realizados (extrato bancário e livro-caixa).
- Confira se o saldo final da planilha bate com a soma dos saldos reais; diferença significa lançamento faltando.
- Anote os desvios importantes (cliente atrasou, despesa extra) e ajuste as premissas.
- Acrescente um mês no fim, para sempre enxergar 12 meses à frente.
Erros comuns
- Lançar a venda no cartão no mês da venda, e não no mês do recebimento.
- Esquecer a taxa da maquininha e o custo da antecipação.
- Não provisionar 13º e férias.
- Misturar contas pessoais e da empresa: defina um pró-labore fixo e lance-o como saída.
- Fazer a projeção uma vez e abandonar.
Perguntas frequentes
Qual deve ser o saldo mínimo de caixa?
Uma referência comum é cobrir pelo menos um mês de despesas fixas (folha, aluguel, impostos, parcelas). Negócios sazonais ou com muitas vendas a prazo precisam de reserva maior.
MEI precisa de fluxo de caixa projetado?
Não é obrigatório, mas uma versão simples com entradas, despesas e o DAS-MEI ajuda muito a separar o dinheiro do negócio do dinheiro pessoal e a planejar compras.
Vale a pena antecipar recebíveis do cartão?
Depende do custo. Compare a taxa de antecipação com outras opções (prazo com fornecedor, capital de giro) e use a planilha para ver se o problema é pontual ou recorrente.
Funciona no Google Planilhas?
Sim. SOMA, SE, SOMASES e FIMMÊS funcionam em português no Google Planilhas, e fica fácil compartilhar com o contador.
Para saber quanto precisa vender para cobrir os custos, veja a planilha de ponto de equilíbrio. Mais guias em Finanças para pequenas empresas.